
Mães solo: a vida das mulheres que, sozinhas, criam suas famílias
Entenda mais sobre a uniparentalidade e como ela é vivenciada nos mais diversos lares brasilienses
Banco de Imagens: Adobe Stock
A família é o primeiro círculo social em que se vive. É dentro da família que se aprendem os primeiros valores, normas sociais e comportamentos, onde se desenvolvem os laços afetivos mais profundos e duradouros. Esse núcleo se faz de diversas maneiras, sendo uma delas os lares onde as mães criam, sozinhas, seus filhos. São mais de 11,6 milhões de mulheres que trilham este caminho, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No Distrito Federal, nos primeiros quatro meses de 2023, 971 crianças foram registradas somente com o nome de suas mães. A pesquisa do IPEDF (Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal), de 2021, mostrou que no quadradinho estão presentes mais de 140 mil mães solo. Isso mostra o quão próxima é esta realidade, a qual está cercada de lutas e dilemas incessantes em busca da criação dos filhos com muito amor e respeito por suas mães.
A jornada da uniparentalidade é árdua por diversas vezes, sendo marcada por dificuldades que vão desde o preconceito até a falta de uma rede de apoio sólida. No entanto, o brilho nos olhos dessas mulheres reflete um amor inabalável por seus filhos, revelando um outro aspecto dessa experiência. A decisão de se tornar mãe solteira pode ser tanto uma escolha pessoal quanto uma resposta às circunstâncias da vida. Independentemente do motivo, essas mulheres enfrentam uma série de desafios únicos. Ouvir suas vozes e compreender suas perspectivas é essencial para entender cada realidade, muitas das quais são, às vezes, marginalizadas.

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As vozes que maternam
“Todos os pequenos passos que eu fui dando na vida, eu sempre fiz questão de comemorar com ela. Eu sinto como se eu fosse a grande aposta da minha mãe, sabe?”, compartilha o advogado Daniel Nepomuceno, 25, cuja mãe solo batalhou incansavelmente para criá-lo. Seu relato direto ecoa a história de muitos brasileiros que cresceram vendo a resistência de suas mães diante das dificuldades. Essas mães, que muitas vezes lutam sozinhas, são verdadeiras heroínas, dedicadas a dar o melhor de si para seus filhos e inspirando-os a trilhar um caminho de superação e gratidão.
Relatos de discriminação, falta de apoio e julgamentos sociais permeiam suas vidas, muitas vezes adicionando camadas extra de dificuldade a uma jornada já complexa. No entanto, é importante reconhecer a coragem e a resiliência dessas mulheres que enfrentam tais obstáculos com determinação e amor inabalável por seus filhos. Afinal, é no amor e no carinho de seus filhos que elas encontram forças para lutar. Reconhecer e valorizar suas jornadas contribuem para a construção de uma sociedade mais inclusiva e empática, onde todas as formas de família sejam respeitadas e apoiadas.

Acervo Pessoal
Daniel Nepomuceno relatou que sentia falta da mãe quando ela tinha que trabalhar muito para fornecer educação, moradia, entre outras necessidades básicas, mas este fato também o fez se aproximar mais ainda dela.
Ouvir. Essa simples palavra representa uma profunda necessidade humana: a de poder compartilhar suas vivências e, assim, sentir-se acolhido. Muitas mães sentem a necessidade de dividir alegrias e angústias, mostrando a realidade de uma maternidade regida sem a presença completa da figura paterna. Ouvir não só proporciona um espaço para expressão de sentimentos, mas também reconhece a realidade desafiadora da maternidade solo e fortalece os laços de solidariedade.
Lucinéia Nepomuceno, ao ter seu filho aos 29 anos, tomou a difícil decisão de se separar do pai, sair do ambiente hostil e violento em que vivia em busca de dignidade. Assim, esforçou-se ao máximo para dar a Daniel um futuro próspero, buscando criar uma pessoa de caráter. Ao longo da infância dele, teve carga horária de 60 horas como professora, além de aulas particulares para conseguir se manter. Em toda essa jornada, seu foco foi dar uma ótima educação ao garoto, que hoje é advogado e luta por causas familiares.

Créditos: Maria Clara Batista

Créditos: Maria Clara Batista
Amair Arneitz teve sua filha aos 21 anos, enfrentando o abandono do pai da criança e o preconceito, tanto em casa quanto na faculdade. Lutando contra a fome e diversas adversidades, ela dedicou-se incansavelmente a proporcionar uma infância feliz e saudável para sua filha. Sua jornada é marcada por uma determinação inabalável e um amor incondicional, que a fortaleceram nos momentos mais difíceis. Hoje, a juíza de vinhos mostra que sua história é um testemunho inspirador do poder da resiliência e do amor materno, oferecendo esperança e encorajamento para outras que enfrentam desafios semelhantes. “Minha filha disse uma vez para mim que pai não é quem põe no mundo, é quem cria, quem dá educação, não quem pede para abortar. Criei minha filha com boa índole, hoje somos muito amigas”.
Juvani Lima sempre sonhou em ser mãe. Saiu de Trindade com seu marido em direção à capital, em busca de vida nova. Entretanto, sem uma rede de apoio e estabilidade financeira, conheceu outra versão de seu companheiro. Sofreu humilhações e abuso psicológicos, se viu com dificuldades, logo iniciou sua jornada como diarista, o que levou à sua independência e o retorno aos estudos. Um dilema foi a deficiência auditiva de seu filho, descoberta aos seis anos, o que a fez lutar ainda mais por si e por seu filho.

Créditos: Maria Clara Batista

Acervo Pessoal
Luciana Musse cria seu filho, hoje com nove anos, com o auxílio do pai, mas carrega o maior peso: o de estar presente diariamente e auxiliar seu filho sempre que necessário. Ela viveu uma união estável, mas rompeu com o companheiro aos oito meses de nascido do garoto. A professora universitária divide seu tempo entre o trabalho e seu filho, para dar a ele o melhor. Com uma rede de apoio restrita, relata que as principais demandas estão sempre direcionadas às mães.
Carol Moura enfrenta não só as dificuldades da maternidade solo, como também uma maternidade atípica. Após engravidar, residiu por um período na casa do progenitor e, após o nascimento de Helena, decidiu voltar para Brasília e criar sua filha de maneira independente. Quando recebeu o diagnóstico de sua filha, a família paterna se afastou ainda mais, o que reduziu sua rede de apoio. Ainda assim, destaca seu amor incondicional: “Ela veio para ressignificar muita coisa para mim, ela me mudou como ser humano. Hoje meu maior valor é minha família”.

Acervo Pessoal
A realidade do preconceito contra mães solo
Em uma sociedade consolidada em base patriarcal, é inevitável a tendência de idealizar a família tradicional como a única forma válida e ideal de estrutura familiar. Esse modelo retratado por um pai provedor, uma mãe carinhosa e seus filhos é enraizado em concepções sociais, o que leva a um desenvolvimento de diferentes formas de preconceitos em relação aos que fogem ao padrão.
Muitas das mães solo, por vezes desde o início da gravidez, passam a viver esta realidade de julgamento, exclusão e marginalização nos mais diversos ambientes em que vivem. E, nesse momento em que percebem uma fraca rede de apoio, torna-se ainda mais árduo o processo de criação de seus filhos. Afinal, muitas passam a deixar a si mesmas de lado, em prol de buscar o melhor para quem mais amam.
Seja pela família, pelos amigos ou por conhecidos, a mudança de perspectiva sobre as mulheres que, por decisão ou acaso da vida, criam seus filhos sozinhas, gera dor e sofrimento para elas. Afinal, durante um momento de fragilidade emocional, a falta de consideração e apoio acarreta dificuldades para a saúde mental destas mulheres, tornando-se cicatrizes para toda a vida.

Créditos: Maria Clara Batista
“A mãe solo é uma figura social que tem uma tendência a estar em vulnerabilidade. Principalmente mulheres negras, que já estão na vulnerabilidade das estatísticas”, cita a psicóloga Isabela Parente, especialista em maternagem.
Essa dor foi vivida por Lucinéia em sua igreja, onde era excluída por ter escolhido o divórcio e criar uma criança sozinha. “Geralmente na igreja você tem um grupo de jovens, um de senhoras casadas e os casais de namorados. Eu não era de nenhum deles e algumas irmãs achavam que eu queria os maridos delas, mas não. Então se torna um ambiente terrível”.
A jornada de Amair não foi diferente. Durante a sua graduação, ao descobrir a gestação, suas colegas imediatamente se afastaram. Além delas, em casa, sua mãe a tratava de forma humilhante e não dar à ela o devido amparo necessitado, apoiando o aborto durante toda a sua gestação, algo que Amair havia decidido não fazer. Em relação à vida profissional, essa realidade não foi diferente: “Antigamente, mulher que estava grávida, nenhuma empresa queria contratar, mesmo sendo estágio da faculdade. Eu tive que estudar muito e lutar muito para mostrar minha eficiência, para poder provar que eu poderia fornecer todo o meu conhecimento para empresa, sem a maternidade atrapalhar isso”, relata.
Para Carol e Juvani, o preconceito ganha outras formas. Além de serem mães solo, sem um relacionamento com o pai da criança, sofrem com o julgamento dos outros em relação à maternidade atípica. Afinal, o autismo e a deficiência auditiva são ainda vistos com maus olhos pela sociedade.
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Créditos: Sarah Almeida
Fontes: Portal G1, Portal FGV, Portal Vitoria

Desafios legais e emocionais: uma análise jurídica e psicológica das mães solo
Ao mergulhar em relatos tão comoventes de mães que enfrentam a jornada da maternidade solo, surge um desejo intrínseco de compreender essa realidade sob diferentes perspectivas. Especialistas em diversas áreas, conscientes dos desafios únicos enfrentados por essas mulheres, dedicam-se a abordar essa temática de maneiras variadas. Seja na psicologia, assistência social, direito ou saúde, há um esforço conjunto para promover uma melhor qualidade de vida para aquelas que carregam sobre seus ombros, sozinhas, a responsabilidade de criar lares e famílias. Essa busca por compreensão e apoio é essencial para oferecer suporte eficaz e construir uma sociedade mais inclusiva e empática, onde todas as formas de família sejam valorizadas e apoiadas.
A Constituição Federal de 1988, carta que rege a sociedade brasileira, afirma em seu artigo 226, inciso 4: “entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes". Portanto, a lei reconhece a dignidade e proteção da família, em suas mais diversas maneiras de ser. Entretanto, no âmbito jurídico, muitos pais deixam de dar aos seus filhos a devida assistência. Um fator que prejudica as mulheres é a ausência de políticas públicas específicas dedicadas às mães solo.
A advogada e professora de direito, Luciana Musse, afirma que “existe uma lei de planejamento familiar que envolve a parentalidade responsável. Muito se atribui a mulher, então já existe a legislação, o Estado fornece métodos anticoncepcionais. Acredito que caberia uma política de conscientização masculina para a parentalidade responsável, essa mudança cultural, que não é simples. O filho é dos dois, independente da relação entre os pais, portanto os dois devem se juntar para contribuir para que essa criança tenha a melhor infância.”
Para a psicologia, a uniparentalidade está envolta em diversos dilemas, os quais geram extremas dificuldades e cargas emocionais direcionadas às mães solo. A especialista aponta que a maternidade é um processo extremamente complexo, já que as mulheres, mesmo com rede de apoio, carregam a maior parte da criação dos filhos. Para mães solo, esta dificuldade é multiplicada.
“A gente estava fazendo uma análise das estatísticas do IBGE sobre maternidade e, juntando várias informações, chegamos a conclusão de que as mulheres que estão trabalhando no Brasil são mulheres mães solo. Então precisamos estabelecer meios para integrar essas mulheres com qualidade no mercado de trabalho”, relata Isabela.